terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Secularidade e Tambor de Mina - Prof. Dr.Sergio Ferretti


Comunicação apresentada na Mesa Redonda A secularidade e o Tambor de Mina no I Seminário Fala Vodunsi no Hotel Praia Mar em S.Luís a 29/11/2008.


No que entendo a palavra secularização está relacionado com o século, ou o mundo. Na Igreja Católica há uma diferença entre os padres seculares, que vivem em Paróquias, sujeitos aos Bispos e os padres regulares, que pertencem a congregações religiosas como Franciscanos, Dominicanos, Beneditinos e outros que, vivem em conventos e fora do mundo secular. Quando um padre regular deixa a congregação e vai para o clero secular se diz que ele foi secularizado, teve dispensa dos votos monásticos e passa a estar mais em contacto com o mundo exterior ou ao século do que com o convento. Assim secularização significa transferência de uma pessoa ou um bem clerical a uma instituição civil. Do mesmo modo se fala em escola leiga ou secular em oposição à escola religiosa
Não sei se a expressão secularidade e tambor de mina, está bem empregada. Creio que o interesse do debate aqui está mais em função da atualização do tambor de mina e não tanto uma secularidade ou secularização do tambor de mina. Parece-me que o interesse é saber como os terreiros de tambor de mina devem se apresentar atualmente diante do mundo em que estamos inseridos. Trata-se de fato da atualização ou do “aggiornamento” como se diz em italiano. É o que podemos entender lendo o release deste encontro que procura entender a situação do tambor de mina no Maranhão hoje. Não vamos nos referir aqui aos aspectos litúrgicos ou aos segredos do culto mas a alguns aspectos da atuação dos terreiros frente a sociedade atual ou sobre a função social e cultural das casas de culto afro nos dias de hoje. Vou apresentar algumas idéias sobre estes assuntos mas é claro que são apenas idéias e que evidentemente são discutíveis.

A meu ver acho que deve haver uma inspiração no modelo tradicional do Tambor de Mina como foi instituído pelos africanos no século XIX, como por exemplo, na Casa das Minas e na Casa de Nagô e em algumas outras. Mas evidentemente este modelo tem que ser atualizado para estar mais de acordo com os tempos atuais. Não estamos mais no século XIX quando a religião foi implantada aqui. Mas parece importante a preservação dos mitos e dos rituais que foram implantados pelos africanos no Maranhão Como deve ser esta atualização? Quais os seus aspectos principais?
No passado o Tambor de Mina era praticado quase que exclusivamente por mulheres, como ainda acontece em algumas casas. Os homens ocupavam cargos específicos, quase que só como tocadores de instrumentos e sacrificadores de animais. Hoje evidentemente esta situação se modificou e a religião interessa tanto a homens quanto a mulheres, embora constatemos de modo geral que a presença feminina é mais expressiva até hoje no Maranhão.
Segredos do culto. Toda religião tem seus rituais que são privados e outros que são públicos. Mas no Tambor de Mina tradicional havia muito segredo e mistério, evitava-se inclusive falar o nome das entidades, contar suas estórias e mitos, seus cânticos e orações em público. Creio que nos terreiros atuais esta prática tende a se reduzir embora continue a haver rituais privados e locais de acesso restrito aos iniciados. Isto é importante inclusive para a maior auto-valorização da religião. Mas o excesso de segredos e mistérios envolvendo o culto é prejudicial à atualização da religião nos dias de hoje, quando tudo é divulgado por escrito ou pela internet.
Oralidade. Sabemos que no passado os escravos eram analfabetos e a tradição religiosa afro-brasileira foi transmitida, sobretudo oralmente. As religiões de origens africanas não são religiões da escrita, do livro, da pregação, da palavra proferida em público, da oratória, do texto escrito e da revelação acabada e que a oralidade ainda é muito importante nestas religiões. Na sociedade atual, entretanto, em que a maioria das pessoas é alfabetizada, é claro que muitos conhecimentos religiosos são transmitidos e conservados por escrito também nas religiões afro-brasileiras. Este é um fator que provoca transformações estruturais nestas religiões, pois nos terreiros também a maioria dos filhos-de-santo é alfabetizada e tende a ter nível de instrução cada vez mais elevado. Já há muitos pais e filhos-de-santo que são graduados e mesmo pós-graduados nas universidades e isto parece ser é uma tendência a se ampliar. Assim cada vez mais os conhecimentos religiosos afro-brasileiros tenderão a ser transmitidos também por escritos embora os conhecimentos orais continuem sendo valorizados.
Autonomia e isolamento das casas. Em geral os pais e mães-de-santo, como os pastores evangélicos costumam ser muito ciosos por sua autonomia e as federações de culto afro não costumam ter muito prestígio, a não ser as Federações de Umbanda e assim mesmo até certo ponto. O problema maior é que cada casa se julga mais certa, mais correta e melhor do que as demais. Isto é uma característica de quase todas as religiões e parece que também é encontrada entre as igrejas evangélicas A meu ver este é um dos graves problemas para as religiões afro-brasileiras nos dias atuais, que precisa ser superado para que as religiões de origens africanas tenham maior peso e maior respeitabilidade na sociedade atual.
A partir do exemplo dos evangélicos e de outros grupos religiosos, creio que os participantes das religiões afro-brasileiras precisam se organizar, para eleger seus representantes no legislativo e conseguir melhor defesa de seus direitos. Estes representantes precisam ser bem escolhidos e exercer uma liderança positiva. Temos alguns exemplos de representantes das religiões afro eleitos no Maranhão mas ainda são poucos os representantes políticos dos cultos afro-brasileiros.
Valorização da identidade negra. No passado havia é claro resistência cultural e a preservação da identidade religiosa nos grupos de culto afro, mas praticamente não havia consciência desta valorização. Hoje é necessário que esta consciência seja assumida e divulgada. Muitos que hoje são evangélicos saíram das religiões afro-brasileiras e parece que alguns encontram maior valorização da auto-estima como negros nestas religiões que são recentemente importadas, mais divulgadas pela mídia e que não preservam valores de nossa cultura relacionados como a música, a dança, o artesanato, a culinária e a cultura popular em geral.
As religiões afro-brasileiras precisam contribuir para estimular a auto-estima entre seus participantes que devem sentir orgulho em participar destas tradições que foram herdadas dos antepassados e que são conservadas como forma de resistência cultural. Durante muito tempo estas religiões foram estigmatizadas e perseguidas pelas autoridades e pela mídia e ainda hoje continuam em grande parte mal conhecidas. É necessário que os seus participantes se sintam valorizados enquanto pessoas, como cidadãos e como guardiões de uma tradição ancestral que constitui um fator importante de definição da identidade nacional.
Sabemos que nas religiões afro todos são bem aceitos, que elas não são religiões exclusivistas, de “quem não está conosco está contra nós”, como a maioria das religiões. São tolerantes com outras religiões, aceitam as outras como diferentes, mas não como totalmente contraditórias. Seus fiéis podem freqüentar o catolicismo, o espiritismo e às vezes até religiões evangélicas, o que é mais raro, como tem sido constatado, mas não impossível como muitos pensam. A dupla pertença é comum nas religiões afro, especialmente com o catolicismo. Esta característica de tolerância frente aos outros parece-nos uma das características mais importantes das religiões afro-brasileiras e a nosso ver deve ser incentivada.
As religiões afro-brasileiras são religiões de alegria, em que se reza cantando e dançando, como os judeus faziam no templo do Rei Salomão. Na Igreja Católica na Idade Média e em parte até o séc. XVIII no Brasil, também se faziam festas e eram realizadas danças nas igrejas. Diferentemente de muitas religiões em que se reza contritamente, com as mãos postas, nas religiões afro-brasileiras se reza cantando e dançando, por isso nelas sempre se organizam muitas festas com tambores, cabaças e outros instrumentos, ou com palmas. Constata-se que atualmente também se costuma cantar e dançar em muitos cultos católicos ou evangélicos, o que as religiões afro sempre fizeram. As danças nas religiões afro-brasileiras expressam gestos que falam sobre elementos dos mitos presentes nos cânticos e na religião, muitos são cantados em língua esotérica. A performance dos rituais é bonita, alegre ou sóbria, conforme peculiaridades de cada cerimônia. Esta característica é também importante e deve ser acentuada.
Na preparação dos rituais afro-brasileiros há uma série de ensinamentos que são aprendidos como tocar, cantar, dançar, bordar, costurar, desenhar, cozinhar, preparar instrumentos, etc. Os terreiros funcionam como escolas populares onde se ensinam e se aprendem estas e muitas outras atividades úteis na vida cotidiana, que servem também para ganhar a vida, embora não se pense nem se fale em teologia da prosperidade. Estas atividades em geral se relacionam com profissões consideradas subalternas em nossa sociedade, mas transmitem uma arte, uma técnica e uma profissão. Mas a religião não é só festa, há diversos ritos que são realizados discretamente. Como se considera que festas religiosas fazem parte da cultura popular, as religiões afro-brasileiras muitas vezes são pejorativamente encaradas como mero folclore, embora seus participantes saibam distinguir claramente religião, como algo sério, de folclore que é, sobretudo, recreativo. Pode-se exemplificar no Maranhão com diferenças entre os rituais religiosos do tambor de mina e a dança folclórica do tambor de crioula. Sabemos que muitas destas manifestações da cultura popular estão também presentes nos terreiros, incluídas entre as atividades culturais das comunidades de culto, como entre outros, festas de tambor de crioula, de bumba-meu-boi, apresentação de autos do pastor, festa do Divino, queimação das palinhas do presépio, etc. Parece importante que estas atividades continuem a ser realizadas nos terreiros como manifestações culturais importantes da região em que estamos inseridos e tais atividades estão presentes nas casas de culto.
Em decorrência do processo de globalização e por outros fatores, um dos temas que atualmente começa a ser debatido pelas ciências sociais é o turismo. Na antropologia e nas ciências sociais parece que vigorava até pouco tempo uma certa aversão ao fenômeno do turismo, como algo oposto ao trabalho de campo da pesquisa científica e de fato há grandes diferenças entre a curiosidade do turista e a do pesquisador, embora enquanto viajantes a procura do outro, do diferente, acabam tendo algo em comum. O turismo religioso tem sido analisado principalmente do ponto de vista das romarias a locais sacros, relacionados no Brasil, sobretudo com o catolicismo popular. Existe, entretanto, também um turismo religioso incipiente relacionado com as religiões afro-brasileiras, que ainda tem sido pouco estudado.
Como em outras regiões atualmente no Maranhão o turismo é uma realidade em expansão que contem elementos negativos e positivos. Depois de tombada pela UNESCO como patrimônio da Humanidade, a cidade de São Luís tem sido procurada por interessados nas belezas de seu acervo arquitetônico, do folclore e do turismo cultural. Neste aspecto os terreiros de culto afro constituem uma atração, como ocorre em outras capitais antigas do país, que receberam influência africana. Secretarias de Turismo, o SEBRAE e outros órgãos têm realizado estudos em alguns terreiros para servir de orientação a turistas que buscam informações sobre os mesmos. Entre as conseqüências do turismo para os terreiros, considera-se que pode ajudar a combater preconceitos, divulgar e tornar mais conhecida a religiosidade popular, desenvolver laços temporários de amizade e talvez mesmo trazer algumas ajudas em dinheiro.
Não estamos de acordo que hajam rituais religiosos em que os turistas paguem 40 ou 50 Euros para assistir, como temos notícias que vem ocorrendo em algumas casas de candomblé para turistas da Bahia. Parece preferível que haja, como em Cuba, um balé folclórico, que empregue tocadores e filhos-de-santo de terreiros e que se apresentem como artistas em palcos de hotéis e teatros. Temos dúvidas se o turismo pode ou não contribuir para desenvolver o interesse dos mais jovens em preservar a tradição dos mais velhos, mas vê-se que o turismo, sobretudo o turismo cultural constitui elemento novo que entra em cena na contemporaneidade, não pode ser deixado de lado e necessita ser estudado em relação às religiões afro-brasileiras. Há pessoas que visitam o Maranhão e o Nordeste e estão interessados em conhecer a cultura e as religiões afro-brasileiras e é preciso prever a presença dessas pessoas de forma a que elas visitem, mas não perturbem os rituais das casas de culto afro. É preciso que os pais e filhos-de-santo estejam preparados para refletir sobre influências positivas e negativas que podem ser provocadas pelo turismo nos terreiros.
Atualmente as religiões afro-brasileiras precisam estimular e participar na capacitação profissional de seus membros para que possam assumir posições sociais mais dignas e melhor remuneradas. Precisam igualmente colaborar no desenvolvimento educacional e na preservação da saúde dos participantes, bem como envolver-se em atividades de educação, saúde e capacitação do bairro e da comunidade em que estão inseridos para que haja um retorno social do terreiro à comunidade. Os terreiros sempre desenvolveram atividades relacionadas com a saúde e a educação, mas estas atividades hoje necessitam ser mais formalizadas, difundindo-se hábitos de higiene bem como a valorização das medicinas alternativas.
A ecologia atualmente é um tema que exige o envolvimento de todos em vista à salvaguarda do planeta que preocupa a todos. As divindades das religiões de origens africanas estão relacionadas e protetoras das forças da natureza. Assim é um dever de todo o povo-de-santo respeitar e proteger a natureza. Os rituais realizados em praias, rios, lagos, cachoeiras e matas devem se realizados com respeito à natureza, evitando-se formas desnecessárias de poluição com o abandono de resíduos de velas e de objetos rituais e de consumo.
Um problema que as religiões afro-brasileiras atualmente enfrentam em todo país é o preconceito e as perseguições das igrejas neopentecostais, através da mídia protestante e por outros meios. A partir dos anos de 1970 e 1980 as religiões afro-brasileiras passaram a ser menos perseguidas e começaram a ser mais respeitadas. Justamente desde este período as igrejas evangélicas passaram a desrespeitar a liberdade religiosa e a difamar as religiões afro. É preciso que os terreiros conheçam seus direitos e saibam se defender quando atacados. Procurem amigos, advogados e a mídia para se defender destes ataques.
Em suma constatamos que no presente há inúmeras atividades e funções que se apresentam as religiões afro-brasileiras e elas precisam se adaptar melhor ao mundo atual. É preciso por isso que seus adeptos e seguidores se afirmem como participantes das religiões de origens africanas e assumam esta participação diante dos outros, das autoridades, do recenseamento para que sua religião tenha maior visibilidade na sociedade e se beneficie desta visibilidade.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

PALESTRA DE ABERTURA - Por Professor Neto Fonseca


ETICA NAS RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA E VARIANTES.
Professor Firmino Fonseca – NETO FONSECA

Geógrafo
Especialista em Gestão Ambiental
Especialista em Gestão de Qualidade ISO 9001:2000
Presidente do Centro Cultural DANBIRAXÉ – CCDAN
Secretário Geral da Associação Cultural AXÉ DAS YABÁS - ACAY
Coordenador Geral da Coordenação Amazônica de Religiões Africanas e Ameríndias –CARMAA/ Núcleo Maranhão.


ÉTICA
Originada do grego ethos (modo de ser, caráter), e do latim mos (costumes, de onde deriva a palvra moral). Em filosofia, ética significa o que é bom para o indivíduo e para a sociedade. Entender o sentido de ser ético contribui para estabelecer a natureza dos deveres no relacionamento do indivíduo-sociedade.

MORAL
É o conjunto de normas, princípios, preceitos, costumes, valores que norteam o comportamento do indivíduo no seu grupo social.
Moral e ética não devem ser confundidos : enquanto a moral é normativa, a ética é teórica, busca justificar costumes de uma sociedade, e fornece subsídios para solucionar seus problemas mais comuns.
Ética também não deve ser confundida como lei, embora com certa frequência a lei tenha como base princípios éticos. Ao contrário do que ocorre com a lei nenhum indivíduo pode ser compelido, pelo Estado ou por outros indivíduos, a cumprir normas éticas, nem sofrer sanção por desobediência a estas.
A ética é uma característica inerente a toda ação humana e, por esta razão, é um elemento vital na produção da realidade social. Todo ser humano possui senso ético, uma espécie de “consciência moral”, estando constantemente avaliando e julgando suas ações para saber se são boas ou más, certas ou erradas, justas ou injustas.
Existem sempre comportamentos justificáveis sob a ótica do certo e do errado, do bem e do mal. Embora relacionada com o agir individual, essas classificaçãoes têm relações com matrizes culturais e contextos históricos.
A ética está relacionada a opção, ao desejo de realizar algo a vida, mantendo relações com os outros relções justas e aceitáveis. Via de regra, está fundamentada nas idéias de bem e virtude enquanto valores perseguidos por todo ser humano e cujo alcance se traduz numa existência plena e feliz.
A ética não é algo superposto à conduta humana, pois todas as nossas atividades envolvem uma carga moral. Idéias sobre o bem e o mal, o certo e o errado, o permitido e o proibido, definem nossa realidade.
Em nossas relações cotidianas sempre estamos diante de problemas do tipo: devo dizer a verdade ou existem ocasiões que posso mentir? Será que é correto tomar tal atitude? O homem é um ser-no-mundo, que só realiza sua existência no encontro com outros homens, sendo que , todas as nossas ações e decisões afetam as outras pessoas. Nesta co-existência naturalmente tem que existir regras que coordenem e harmonizem esta relação. Estas regras no grupo indicam os limites em relação aos quais devemos nos submenter. São códigos culturais que nos obrigam, mas ao mesmo tempo nos protegem.
Falar de ética dentro do contexto religioso nos impulsiona a separar o bem do mal. Falar de religiões de matriz afircana e suas variações devemos nos distanciar de valores cristãos como pecado, ja que esta palavra não diz respeito à nossa prática religiosa. As religiões afro-descendentes possuem normas que nem sempre são do conhecimento dos Pais, Mães e filhos-de-santo. Para sociedade externa ao campo de ação do axé, estas normas, condutas nem existem. Ora como podem dizer que não temos normas em nossa prática se cultuamos a natureza e de lá apanhamos nosso fonte de força, nossa energia. Os elementos que retiramos do espaço natural ou transformado a ele é devolvido sem desencadear desenquilíbrio ecológico. Os saberes ancestres legados pela oralidade nos conduzem a comportamentos relacionais baseados em respeito mútuo. Tais saberes, transmitidos na convivência dos terreiros, nos processos iniciáticos, nas cerimônias públicas versam sobre aceitação, inclusão e sentido de pertença. As religiões afro-brasileira possuem um corpo doutrinário, uma visão de mundo própria que muitos praticam sem perceber que são normas de conduta. É claro que com a modernidade, a facilidade de contato entre espaços acelera o contato com outros povos e novas culturas que podem levar a idéia de homogeinização, fato que discordo, pois a sustentabilidade da nossa crença está na fidelidade a tradição. Contudo, a perpetuação da tradição depende da educação de axé, aquela que se recebe a partir do momento que se “nasce para vida religiosa dentro do santo”.
Vivemos uma crise ética, um momento tenso, marcado pelo individualismo com perigosa quebra de valores coletivos, comunitários e solidários. Nesse contexto vemos as religiões afro-descendentes reféns de um projeto de descrença e desmoralização por algumas igrejas pentecostais e neo-pentencostais que lançam mão do poder econômico e tecnológico e disseminam 24h por dia discursos ideológicos negativos descredibilizando nossa tradição além do descaso do Estado.
A força desse projeto vem da fragilidade de nossas relações sociais. Será que não contribuimos com isso ao ver nossos pares como diferentes, como errados? Não há de se negar que o desvio da tradição é fato, entretanto a cultura evolui, mas a êssencia do conhecimento ancestral é imutável. É valido fala de adaptação mas é muito perigoso lançar mão da recriação, agregação e justaposição dentro da religião de matriz africana. Trocar o fogo a lenha por combustível industrializado, gás de cozinha, é muito diferente de enrolar um acaçá com papel crepom verde. Quando não se cumpre normas e se completa um período iniciatico, por pressa ou presunção é inevitável que algum momento se bata de frente com o desconhecido, neste caso“inovar”, é um forte exemplo de falta de ética dentro da nossa religião e principalmente de fraqueza de educação de axé.
Alguns exemplos de falta postura ética dentro do contexto das religiões de matriz africana:
1 – Respeitar a nação do outro, sua história, sua origem, apesar das diferenças descendemos de um mesmo espaço físico e mítico, a Mãe África;
2 –Respeitar os mais velhos é imperativo, ora se nossa crença é baseada na ancestralidade, e nosso conhecimento é milenar, assim o que fazemos no presente veio do passado, veio dos mais velhos. Talvez aquele Pai ou Mãe de santo não use um discurso formal, acadêmico, mais isto não da direito aos mais novos, que teve mais acesso a cultura formal, ignorar, desresoeitar e até mesmo ridicularizar. Quem hoje é pai, foi filho, teve ou tem avô e bisavô.
3 – Cuidado com o tratamento às visitas em dias de festa. Esta pessoa deixou outros compromissos para nos prestigiar.
4 – Não confundir a religião com quetões sexuais. Nossa religião não nos tolhe, mas o incesto é quebra de axé. Além disso, não se deve utilizar a religião para exteriorizar frustações sexuais pelo uso da autoridade para servir a seus desejos físicos, isto é assédio e dá cadeia.
5 – Temos que parar de nos ver como concorrentes, já temos inimigos demais fora do nosso contexto religioso. Não devemos nos considerar melhor ou superior ao outro. A discórdia só nos enfraquece. Por que se desfazer do outro que é do seu mesmo vodum, orixá ou encantado. As divindades não são propriedades particulares. Eles é que nos escolhem e não o inverso. Meu vodum no meu orí não tem que se comportar igual a um pai ou mãe de santo antigo para ser légítimo. Ora dois músicos ao tocarem o mesmo instrumento usando a mesma partitura o som será mais melodioso no músico mais velho. O plágio de possessão não é crime mas se configura como devaneio e insegurança.
6 – A religião não pode ser considerada como único meio de subsistência. Cobrar chão é visto com axé mas exploração é crime, é estelionato.
7 – Ser ético é aceitar suas limitaçãoes, pedir ajuda, trocar saberes. Abominável é brincar com problemas, vidas e cabeças alheias.

Poderia me estender a noite inteira pois muito se precisa melhorar. Esta é a proposta deste seminário, iniciar uma discussão seria sobre o nosso Tambor de Mina, onde estamos, o que estamos fazendo, onde iremos parar. Assim é de extrema importância a participação de cada um de vocês durante o evento, nos debates, nas discussões. Pois estaremos dando o início de um processo de construção coletiva de um código de ética dentro da nossa religião. Pois, sabemos onde estamos e temos que definir onde chegar.
Bênção dos mais velhos, benção aos mais novos, kolofé, mukuiu, megito, benói, motumbá, sarvá, mantinjáló.
Boa noite a todos.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

CÂNTICO DE PEDIDO DE LICENÇA (Agô) PARA O ALMOÇO (Ajeun) - por Pai Abrahan


UMA PLATÉIA ATENTA


Painel Responsabilidade Social dos Terreiros de Matriz Africana



Da esquerda para direita:

Prof. Ivana César, socióloga, Terreiro de Mina Mamãe Oxum e Pai Oxalá, no bairro da Vila Nova,cordenadora municipal CARMAA - São Luis da área Itaqui-Bacanga/Maranhão;

Sr. Paulo Dumas, FIPPIR

Prof. Socorro Guterres, CCN - MA

Babalorixá Abrahan Klein, do Ile Axé D'Oxumaré, no bairro do Parque Vitória, coordenador municipal da CARMAA - São José de Ribmar/Maranhão;

Babalorixa Vereador José Itaparandy, Ile Axé Ita Ole,no bairro do Maiobão, coordenador da municipal da CARMAA - Paço do Lumiar/Maranhão

Babalorixá, Prof. Neto Fonseca, Geógrafo, coordenador do evento, coordenador estadual da CARMAA - Maranhão

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

I PAINEL Responsabilidade social dos terreiros de Matriz Africana


I PALESTRANTE

Babalorixá Pai Abrahan Klein, do Ilê Axé D'Oxumaré.

Pai Abrahan compartilha sua experiência de sucesso em seu axé e na comundade de entorno. Suaa ações colocaram 10 jovens no mercado de trabalho após cursos de capacitação, além de gerar auto-estima e veículo de empoderamento social com emprego e renda

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

I SEMINÁRIO FALA VODUNSI - Programação oficial






PROGRAMAÇÃO
DIA 29 DE NOVEMBRO DE 2008 – SÁBADO.

LOCAL: Praia-mar Hotel, Avenida São Marcos, Nº. 04, Ponta D’areia.
08h00 - Credenciamento

PRIMEIRO PAINEL - RESPONSABILIDADE SOCIAL DOS TERREIROS DE MATRIZ AFRICANA E VARIANTES
Coordenadora da Mesa: Socorro Guterres:

08h30 - Primeiro painelista Pai ABRAHAN DE BESSEN,
Sacerdote do Kwe Vodun Bessen.

08h50 – Segundo painelista, Profª. IVANA CESAR, Socióloga, Terreiro de Mamãe Oxum e Pai Oxalá, Presidente da Associação de Culto Afro Jeje/Nagô

09h10 - Terceiro painelista, Sr. JOSÉ ITAPARANDI, Secretaria de Cultura de Paço do Lumiar – MA.

09h30 – Quarto painelista, Sr. Dr. GEORGE CAMPOS, REDE NACIONAL DE RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS E SAÚDE - Núcleo Maranhão.
09h50 - DEBATES COM O PÚBLICO.
10h20 – Pausa para o café

SEGUNDO PAINEL – RELIGIÃO E CIDADANIA: Nossos Direitos.

Coordenador da Mesa Dr. RODOLFO ABREU, Advogado, Ebomi do Ile Axé D’Oxumaré

- Primeiro painelista, ANA AMÉLIA MAFRA,
Secretaria de Igualdade Racial do Estado do Maranhão– SEIR.

- Segundo painelista, Professora ILMA DE FÁTIMA,
Coordenadora Educacional de Projetos Especiais para Diversidade Étnico-racial -
SEMED.

- Terceiro painelista, Srª. Iyá, VENINA D’ OGUN. Secretaria de Igualdade Racial do Estado do Maranhão.
- Quarto painelista Dr. MARCIO THADEU SILVA MARQUES, Ministério Público do Estado do Maranhão.

- DEBATES COM O PÚBLICO

12h20 – Intervalo para Almoço
TERCEIRO PAINEL – RESPEITO À DIFERENÇA - CÓDIGOS DE ÉTICA NAS RELIGIOES DE MATRIZ AFRICANA E VARIANTES: Respeitar a diferença, todos somos irmãos.

Coordenadora da Mesa: GISELE PADILHA, Fisioterapeuta, CCN.

- Primeiro painelista LINDOMAR
Sacerdote do Huegbe Toy Gbadé

- Segundo painelista Pai WENDER LOUREDO,
Sacerdote do Ilê Axé Obá Izô.

– Quarto painelista – Pai EPITÁCIO CASTRO,
Sacerdote do Terreiro de Mina Rei Sebastião.

- DEBATES COM O PÚBLICO
16h20 – Pausa para o café

QUARTO PAINEL – A SECULAIRIDADE E O TAMBOR DE MINA: Onde estamos? Para onde iremos?

Coordenador da Mesa: LUCINHA PACHECO, AKONI – Centro de Capacitação para Cidadania

- Primeiro painelista Prof. Dr. SERGIO FERRETI, Antropólogo – UFMA.

Sacerdote da Casa Fanti-Ashanti.

- Terceiro Painelista PAULO DUMAS,
Fórum Intergovernamental de Políticas de Promoção de Igualdade Racial, Coordenador Estadual de Gestores Municipais de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.

- Quarto Painelista Dr. ALBERTO JORGE RODRIGUES DA SILVA, Coordenador Regional da Coordenação Amazônica de Religiões de Matrizes Africanas e Ameríndias – Manaus/AM, Psicólogo Clínico Especialista, Vodunsi He na nação Mina Jeje/Nagô.

17h50 - DEBATES COM O PÚBLICO

18h20 - Coquetel

18h30 - ENCERRAMENTO